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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Poça da Moura - Nova aproximação à realidade arqueológica

Na sequência de uma postagem anterior, a respeito da freguesia de Ferreira de Aves (concelho de Sátão) aqui vai mais um cheirinho dos trabalhos de levantamento arqueológico. A Poça da Moura é uma represa que se encontra na ribeira do Convento, afluente do Rio Vouga, a Ocidente da Serra de São Matias, o domínio visual sobre o vale é bom. Ao longo de 4 quilómetros para Sul podemos encontrar diversos vestígios de ocupação humana de cronologia romana e medieval (habitats, necrópoles de sepulturas escavadas na rocha, lagares, 1 convento e 1 possível Torre...)





Não distante do Vinha do Plastro já referido aqui a propósito de villae romanas e lagares e de ferradias e a poucas centenas de metros a Norte do núcleo medieval do Castelo, encontramos a Poça da Moura, represa considerada romana por Marina Vieira.



Lá aspecto de romana tem, com os seus grandes blocos bem aparelhados e reforçada com blocos graníticos de grandes dimensões.




Mede actualmente cerca de 5 metros de altura e 2,5 metros de largura. Apresenta escalonamento para melhor sustentação das águas. Aproveita do lado Sul o afloramento para seu fortalecimento. O lado Norte encontra-se mais fortalecido por aparelho mais cuidado e reforçado. Lateralmente é possível visualizar que a sua altura já foi maior.




Encontram-se adossadas a grandes massas de afloramento granítico ruinas do que foram 10 azenhas, agora ao abandono. A área encontra-se muito invadida pela vegetação rasteira (silvado e giestal), pelo que foi díficil a completa visualização das ruínas.


Refere Marina Vieira, em recolha oral, que esta teria sofrido graves danos há cerca de 100 anos atrás; altura em que teria o dobro da altura. Pelo que apurámos a represa, até recentemente, servia para regar as terras socalcadas até ao fundo do vale.

Encontramos ainda entalhes rectangulares e semi-circulares e circulares espanhados pela área. Um entalhe semi-circular apresenta uma profundidade considerável e adivinha ter servido de encaixe a uma mó. Esta estrutura encontra-se muito próxima à represa e na direcção da corrente de água.





Bibliografia de referência: VIEIRA, Marina Afonso, 2004: Alto Paiva. “Povoamento nas Épocas Romana e Alto-medieval”, Trabalhos de Arqueologia, 36. Instituto Português de Arqueologia

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Castro de Santos Idos

-“olá! atão estás boa? olha tenho aqui umas pessoas que estão interessadas em ir ver o Castro de Santos Idos. diz-me como é que se vai para lá”
-“hum?”

-“estão aqui uns turistas franceses com um roteiro da região de turismo Dão-Lafões na mão. querem ir ao castelo romano de Santos Idos, diz-me onde é. É no Barro branco?”

-“eh pah… mas aquilo, aquilo não é fácil de dar. estás a ver aquela rua que segue para lá da cadeia? é para aí para baixo. mas olha, aquilo são caminhos cheios de mato… só se… espera, já sei! estás a ver a rua das traseiras da cadeia? há uns senhores de mais idade que vivem aí, eles sabem onde é e sabem a lenda do sino de oiro.”




-“mas estás a falar daquela rua que acaba em caminho de terra batida?”
“Sim mas olha que não imagines que tem lá muralhas ou coisa do género.”
-“ai não? mas aquilo vem no roteiro!”

“é um monte, cheio de mato. o dono daquilo morreu há poucos anos e está mais abandonado, está cheio de mato e podia ser um monte como outro qualquer! mas espera, são arqueólogos?”



“não! são turistas franceses… viram isso no livro de turismo que trazem e não falam português.”


O Castro de Santos Idos encontra-se Sul da vila de Sátão, num monte discreto entre outros mais altos, quase na base ocidental da Serra do Seixo Branco, com um domínio excelente sobre um pequeno vale abrupto da Ribeira do Sátão e sobre o sítio de Chão da Pedra já referido por nós aqui.



Lá encontramos uma longa plataforma ajudada a formar pelos socalcos (?). Ou será por muralha?






Os materiais cerâmicos que se encontram à superfície revelam uma ocupação humana muito interessante, muito provavelmente contínua, desde épocas proto-históricas até épocas medievais.



Os documentos escritos no papel existentes são apenas uma pequena dimensão do tempo; são escassos, esparsos.


Devemos então recorrer aos livros escritos no chão, folheando as camadas de terra, como se fossem páginas escritas pelo dia a dia de milénios. Apenas com um estudo aprofundado que integra muita consulta e escavação arqueológica criteriosa, possível em épocas mais secas e por isso continuada por vários anos, com análise e registo de dados, estudo de peças, contraposição de desenhos, como manda o “figurino”, poderíamos chegar a conclusões.
Nesta fase nada mais podemos, senão fazer perguntas:

---> O que leva à romanização desse possível povoado da Idade do Ferro? É mais comum encontrar assentamentos romanos em zonas mais abertas e de melhor acesso, mais próximas de vales férteis, de linhas de água. Por trazerem um estilo de vida novo, uma nova “ordem” administrativa, política e económica, uma nova realidade, geralmente, apostavam noutro género de assentamento.




---> Porque continuam a ocupar o mesmo espaço?
Ao manterem o mesmo espaço ao longo dos séculos terão mantido a mesma actividade económica? Qual? E em épocas declínio do império romano reorganizaram o espaço? Diminuíram-no ou aumentaram-no?






---> E nas guerras da reconquista, séculos depois? O Sátão teve Carta de Foral em 1111, justificada pela “arte de bem receber” Estaria aqui o núcleo urbano medieval onde viviam? Se não era o centro, as suas gentes não vieram para longe.




É de louvar a preocupação e atenção dos satenses, revista nesta funcionária municipal da conversa transcrita acima.




Seria de louvar se o Castro de Santos Idos tivesse também condição de receber o forasteiro que se interessa pelo Sátão. Era bom que o núcleo original que deu origem à vila, sede de concelho, fosse esse livro aberto…


Não se entende o que leva a região de turismo, que faz estes roteiros turísticos, a colocar na rota estes montes aparentemente vazios de significado, pertencentes a particulares e sem qualquer sinalização. E se o turista conseguiu lá chegar, por ser um incauto aventureiro aliciado pelas fortificações da Idade do Ferro, deparou com um monte abandonado à vegetação e sem qualquer estrutura acima do solo que indique que chegou ao seu destino.

Gostou desta postagem? Esta e outras mais encontram-se em: http://patrimoniosustentavel.blogspot.com/

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Ferreira de Aves - 1ª Aproximação à Realidade Arqueológica

Na freguesia de Ferreira de Aves, no âmbito do levantamento arqueológico, que ainda estamos a terminar, foram identificados cerca de 27 sítios arqueológicos - 1 povoado fortificado, 11 lagares escavados na rocha, 1 represa romana, 6 habitats (3 romanos e 3 romanos/altomedievais), 1 castelo roqueiro, 3 necrópoles de sepulturas escavadas na rocha e 4 sepulturas isoladas, também escavadas na rocha. Para além destes temos ainda 3 monumentos megalíticos, que com a recente alteração dos limites concelhios pertencem agora a Vila Nova de Paiva. Numa área de cerca de 15,90 km², a freguesia já foi concelho, recebeu foral em 1110, outorgado por D. Afonso Henriques. Cerca de 19 sítios arqueológicos são de época medieval, aceitando que alguns destes poderão ter tido uma ocupação anterior e continua desde época romana.

Em Outeiro de Baixo encontramos um habitat romano que terá tido continuação de ocupação medieval, que se chama Vinha do Plastro... (Nesta altura deve estar a perguntar-se: mas como, como podem saber isso? Os fragmentos de materiais cerâmicos que encontramos à superfície são um dos indícios preciosos, que nós arqueólogos utilizamos para poder atribuir a cronologia a um sítio arqueológico, assim como atribuição de tipologia - Castro, Habitat etc. Esses materiais passam despercebidos a quem está com outras preocupações na cabeça, num mundo cheio de outras coisas para aprender e assimilar.
Porém há pessoas a quem lhes chama a atenção e daí que a recolha oral, feita entre as pessoas que ali vivem tem uma importância vital na detecção de sítios com ocupação humana antiga.) à superfície, por uma área invulgarmente extensa, há fragmentos de cerâmica comum, tégula e ímbrice em abundância (cerâmica de construção romana).

A escória de fundição abunda por toda a área, no entanto existe uma área, no extremo Norte do sítio, onde se encontram centenas de fragmentos de escória de fundição, alguns de grandes dimensões.

É possível ainda encontrar, pontualmente, núcleos de sílex. Encontramos pedra aparelhada nos muros e uma base de coluna. Noutros trabalhos foram encontrados pesos de tear. Há uma sepultura escavada na rocha. Pertencentes a este sítio temos ainda a lagareta do Casal, o lagar de Leira do Lagar e da Quinta das Donegas. Segundo recolha oral, existiria ainda um outro, a cerca de 200 metros a Nordeste, que foi destruído.
4 lagares de vinho! então porquê? interrogo-me... ainda se estivessemos em zona de bom vinho?!Porém nesta freguesia o cultivo da vinha é hoje em dia raro, uma vez que a sua qualidade deixa a desejar... e os milhares de fragmentos de escória? alguns são bem grandes...

Estará aqui a explicação do nome atribuído ao antigo concelho? talvez nunca venhamos a saber... porém não é difícil imaginar muita gente a trabalhar o ferro aqui! Para tanta gente seriam precisas casas, alimento, e vinho (?). Ferreira das Aves... as Aves ainda por cá andam e são muitas, felizmente


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